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| um terno pedido de perdão |
Há poucas semanas, quer dizer, em dezembro de 2011, estive fotografando a belíssima casa do Instituto Moreira Salles aqui no Rio de Janeiro. Na pequena pesquisa empreendida para escrever o texto de apresentação das fotos deparei-me com um personagem, Santiago Badariotti Merlo (1912-1994), de nacionalidade argentina e ascendência italiana que fora mordomo da mansão por cerca de 30 anos.
Instigado por algumas histórias a respeito desse personagem assisti hoje ao documentário chamado Santiago (2007), dirigido por João Moreira Salles, filho do falecido Walter Salles ( banqueiro dono da citada mansão onde Santiago serviu por 30 anos). Enfim, Santiago foi ao lado de quem o cineasta conviveu durante toda sua infância e juventude.
O filme começa com o esclarecimento do diretor narrador de que o documentário nascera de uma tentativa de treze anos atrás e ficara desde então inacabado, o objetivo inicial seria fazer "um filme sobre Santiago", o mordomo. É interessante observar que essa primeira parte do filme a despeito de tratar das tentativas anteriores e infrutíferas de concluí-lo termina se revelando uma criativa forma de tratar a metalinguagem cinematográfica. São apresentados os planos de filmagens iniciais, os roteiros de composição das cenas, algumas bonitas cenas que seriam usadas para abrir a versão original que se pretendia, como a cena das fotografias e a do boxer, tudo sob delicadas luzes na confluência do preto e do branco sob o dedilhar da música Eurídice e Orfeu de Glunck..
Porém, como o diretor admite em sua narração sobreposta às imagens antigas da primeira tentativa de elaboração do filme, este é mais que um trabalho sobre um personagem é também sobre o autor.
À época da primeira filmagem, Santiago tinha 80 anos, estava aposentado e vivia sozinho em um pequeno apartamento no Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro. Só treze anos mais tarde, na segunda tentativa de terminar o filme, quando Santiago já falecera, João Moreira Salles, percebe essas duas histórias. A de um velho com um peito carregado de veneração, ternura contida pelas pessoas a quem serviu, como os filhos do dono da casa, crianças que tornaram-se homens e, pelo visto, jamais pode expressar essa afetividade expansivamente confinado que estava nas etiquetas patrão vs. empregado e; a história de um jovem cineasta cheio de idéias acabadas e definitivas de como se retratar um personagem a quem ele julgava outrora conhecer inteiramente.
Daí, na versão definitiva, a que foi lançada nos cimenas, João Moreira Salles tenha optado por não fazer edições, ele se expõe monstrando como conduziu as filmagens de maneira autoritária sem interessar-se pelas versões pessoais sobre si mesmo de Santiago, ou em vários outros momentos onde sua pressa em filmar, sua objetividade beira a incivilidade com o velho mordomo. Na edição do filme esta atitude foi bastante sincera, e , esse pedido de perdão, essa percepção de que se tratava de duas histórias, personagem e diretor, é revelada ainda mais (ou completamente!) ao final da película quando o diretor compreende os desdobramentos éticos que se revelam nas opções estéticas da versão inicial:
"... o segredo do filme... "essa é a última filmagem que fiz com Santiago ela me permite fazer uma observação final, não existe plano fechado na gravação, nenhum close de rosto, ele esta sempre distante, penso que a distância não aconteceu por acaso, ao longo da edição, entendi o que agora parece evidente: a maneira como conduzi as entrevistas me afastou dele. Desde o inicio, havia uma ambiguidade insuperável entre nós que explica o desconforto de Santiago. É que ele não era apenas meu personagem, eu não era apenas um documentariasta, durante os 5 dias de filmagem eu nunca deixei de ser o filho do dono da casa e ele nunca deixou de ser o nosso mordomo..." mais adiante ele diz " e no fim quando tentou lhe falar do que era mais íntimo eu não liguei a câmera"
O fato é que mantendo a aparência de alheio a essa distância que certamente devia lhe incomodar, quanto mais partindo de alguém que vira crescer, e que estava ali talvez num último momento de sua longa vida tão próxmo que poderia até tocá-lo... Santiago deixa-se conduzir por todas as filmagens elegantemente resignado às ordens de composição do jovem diretor. Não sem tentar mesmo em alguns tímidos momentos chamá-lo de "Joãozinho" ou contar uma história que lhe parece pessoal, apenas tente, porque que é cortado pelo diretor, pelo menino que certamente tomou nos braços quando criança e lhe ensinou muitas coisas, sem o saber, como a "certa noção de respeito" que ele demonstrou ao tocar de fraque Beethoven solitariamente na noite fria da mansão da gávea.
Um outro dado revelador sobre sobre Santiago, são suas anotações, cuja finalidade, sentido são buscadas pelo diretor. Quando não estava à serviço dos patrões, em suas horas vagas Santiago fazia anotações e algumas reflexões sobre nomes que ele considerava como integrantes da aristocracia universal, manteve essa atividade durante cerca de 40 anos. Eram reis, nobres, papas, padres, cavaleiros, soldados romanos, personagens bestiais, apaixonados... milhares de páginas, de muitas personalidades esquecidas, desconhecidas que eram do interesse de Santiago como uma certa Francesca Da Rimini, contada pelo italiano Dante Aligheri, que ao ser flagrada por um beijo apaixonado com o cunhado foi empalada com este pela espada do marido que determinou que fossem enterrados juntos, uma bela mulher que não resistiu aos arranjos de um casamento forjado por frias alianças políticas.
Com essa sua atividade de copista da aristocracia universal e suas castanholas que gostava de tocar Santiago pode, como suspeita o melancólico, e, talvez sofregamente arrepedido diretor , " suportar a melancolia de que as coisas não fazem muito sentido".
Meses após o lancamento do documentário em 2007, João Moreira Salles, respondendo a indagação do por quê, logo ele que zempre zelou pela discrição havia se exposto tanto no filme, respodeu: " Fiz Santiago pensando sobretudo em sanar as aflições que me rondavam a alma e que, de certo modo, ainda me atormentam. (...) Há quem, no meio de uma tempestade existencial, resolva usar drogas, viajar a Lourdes e clamar por um milagre, conhecer o Dalai Lama ou praticar esporte. Eu resolvi fazer um filme. (revista bravo on line: http://bravonline.abril.com.br/materia/fiz-filme-para-me-curar-3 )
Enfim, é um filme muito bonito e tocante, sobre um velho que quer ser lembrado e amado e de um intelectual que roga pelo perdão de sua juventude ansiosa.
Enfim, é um filme muito bonito e tocante, sobre um velho que quer ser lembrado e amado e de um intelectual que roga pelo perdão de sua juventude ansiosa.

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